Retalhos da nossa História (26)

A MORTE DE JOSÉ MONTEIRO DA COSTA

O início do ano de 1911 ficou marcado pela morte de José Monteiro da Costa, segundo presidente do FC do Porto e fundamental na revitalização de um projecto que estava praticamente abandonado desde que António Nicolau de Almeida se retirara destas lides. A sua morte ocorreu a 30 de Janeiro, com 29 anos apenas. Vitimado pela doença do costume, que no dealbar do séc. XX matou tantos vultos da nossa história.

José Monteiro da Costa nascera no Porto em 1882. Nos inícios do séc. XX, enquanto era associado da da União de Jardineiros do Porto, presidia ao «Grupo do Destino», agremiação constituída por 24 jovens das melhores famílias da cidade, que regularmente se reuniam e organizavam os mais lautos jantares e animados convívios sociais, entre os quais se destacavam a participação, com carro próprio, no cortejo carnavalesco dos «Fenianos».

Numa das reuniões do «Grupo do Destino», em Agosto de 1906, José Monteiro da Costa, que vinha de uma viagem a Inglaterra, apresenta a ideia de relançar o F. C. do Porto, fundado por António Nicolau de Almeida em 1893 mas completamente inactivo havia alguns anos. O apoio deste e os seus conselhos foram decisivos na aprovação do projecto (numa assembleia em que 13 votaram a favor e 12 contra) e na transformação da festiva agremiação num clube desportivo. O autor da proposta foi desde logo empossado presidente do reatado Football Club do Porto.

Entre 1906 e 1911, período em que esteve à frente dos destinos do clube, Monteiro da Costa lançou de forma definitiva as sementes para o futuro. Como bom horticultor que era, apaixonado pela vida dos vegetais, fez germinar uma planta que definhava a cada dia e deu-lhe vida e alma próprias, fê-la crescer e desenvolver-se. Ele não era apenas o presidente, era também o tesoureiro, o secretário, o atleta e até o árbitro dos jogos.

 

Ao fim-de-semana, liberto que estava das suas actividades profissionais, dedicava-se de manhã à noite aos múltiplos afazeres do clube. Conforme relatos da época, era o primeiro a chegar e o último a partir: organizava jogos com as principais equipas estrangeiras – Real Fortuna de Vigo (actual Celta), Real de Madrid e Europeu de Barcelona (foi o F. C. do Porto a primeira equipa portuguesa a jogar contra adversários europeus) – mas principalmente portuguesas – Benfica e Sporting, Oporto Cricket e Boavista Footballers. No Porto, os desafios realizavam-se sempre com estas duas equipas, as únicas existentes na cidade. O Oporto Cricket era uma equipa formada por cidadãos ingleses que trabalhavam no comércio portuense e o Boavista Footballers era constituído pelos operários da fábrica Graham, na Boavista (desta última viria a sair o actual Boavista); tentava aumentar o número de sócios, contactando com as personalidades famosas da cidade e divulgando ao máximo o novo desporto; dotava a equipa das condições mínimas para a prática do futebol, conseguindo os serviços de um treinador francês radicado em Portugal – Adolph Cassaigne – que acedeu a treinar gratuitamente os toscos atletas; montava as infra-estruturas necessárias, chegando ao ponto de ser ele a marcar, com cal desfeita em água, as linhas do campo de jogos.

A sua primeira preocupação, depois de tomar posse, foi arranjar um terreno para o desenvolvimento das actividades do clube. Como era membro da União de Jardineiros do Porto, conseguiu que lhe fosse alugada parte de um terreno na rua da Rainha, hoje rua Antero de Quental, pela módica quantia de 12 tostões mensais. Ali se realizaram os primeiros jogos do F. C. do Porto. Quanto à sede, aproveitou as instalações do «Grupo do Destino», na rua da Fábrica, pagando a renda do seu próprio bolso. Em seguida, escolheu o emblema – uma bola de futebol com as iniciais F. C. P. no meio – e o equipamento. Numa das primeiras reuniões, alguém sugeriu as cores do Arsenal de Londres, uma potência futebolística da época, mas acabou por ser escolhido o azul e branco, porque eram essas as cores da bandeira nacional. Mal sabiam os primeiros portistas que a monarquia, no nosso país, estava de partida. De qualquer modo, é curiosa esta escolha tão patriótica, sabendo-se hoje que alguns dos mais importantes elementos do F. C. do Porto de então eram conhecidos republicanos e alguns deles estavam até integrados em conspirações contra o regime.

Graças ao homem que ressuscitou um projecto adormecido, o F. C. do Porto cresceu e diversificou as suas actividades. Começou a praticar outras modalidades, como o ténis, o boxe, o atletismo e a ginástica. Quiseram então mudar o nome para Clube Atlético do Porto, mas Monteiro da Costa opôs-se firmemente, juntamente com António Nicolau de Almeida e Romualdo Torres, conseguindo, assim, aquilo que mais nenhum dos actuais grandes clubes portugueses conseguiram: manter o nome de origem ao longo de mais de 100 anos.

Em 1910, o F. C. do Porto participou, juntamente com o Leixões, o Boavista e a Académica de Coimbra, na sua primeira prova «a sério». Disputada anualmente (a Académica era sempre finalista), arrecadava o troféu o clube que vencesse em três anos consecutivos. Por proposta dos membros da direcção, chamou-se ao certame «Taça José Monteiro da Costa», que viria a ser conquistada pelo F. C. do Porto em 1916. É a primeira taça da história do clube.

José Monteiro da Costa já não pôde assistir a essa vitória. Morrendo, não morreu, porque a sua obra, essa, ficou. Desenvolvida, assente em bases seguras, fortalecida. Preparada para os vindouros, que continuaram o sonho e transformaram-no definitivamente em realidade.

Quando José Monteiro da Costa partiu, o F. C. do Porto tinha mais de 100 sócios, praticava uma série de modalidades, regia-se por estatutos próprios (redigidos pelo seu pai) e era, já nessa altura, o maior representante do desporto do norte de Portugal, com uma equipa que lentamente ia aprendendo a arte do futebol. Tudo graças a um homem que, se não foi o fundador do F. C. do Porto (esse papel coube a António Nicolau de Almeida), foi certamente a mais importante figura da sua história.

 

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